8. ARTES E ESPETCULOS 14.8.13

1. LIVROS  A PRINCESA DAS PIMENTINHAS
2. TELEVISO  A CSAR O QUE  DE CSAR
3. CULTURA  AS VINHAS DA HISTRIA
4. CINEMA  AMOR DE PERDIO
5. VEJA RECOMENDA
6. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
7. ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  TUDO  ABSURDO

1. LIVROS  A PRINCESA DAS PIMENTINHAS
Novo fenmeno da literatura para adolescentes, a aucarada Paula Pimenta mobiliza leitoras que agem como tietes em um show de msica pop.
BRUNO MEIER

     No incio dos anos 1990, a mineira Paula Pimenta era uma adolescente com uma coleo bem convencional de amores. Adorava Menudos e RPM. Idolatrava Xuxa: chegou a reservar um quarto no mesmo hotel em que a apresentadora certa vez se hospedou em Belo Horizonte (no deu certo; Xuxa reservara um andar inteiro para melhor se isolar). Aos 16 anos, prestes a embarcar para um intercmbio de seis meses nos Estados Unidos, Paula, segundo ela mesma conta, descobriu que estava apaixonada pelo seu melhor amigo  e s percebeu que a paixo era correspondida quando os dois j estavam afastados por milhares de quilmetros. Mais de dez anos depois, formada em publicidade mas insatisfeita com a carreira, ela foi para Londres fazer um curso de escrita criativa. Nas horas vagas ("sem manicure, psicloga, amigas, pai e me para distrair"), recuperou sua histria de amor impossvel: criou Fani, personagem que, prestes a viajar para um intercmbio, se apaixona pelo amigo. Era o primeiro livro da serie Fazendo Meu Filme, inaugurada em 2008. H cerca de um ms, ao entrar em uma livraria de So Paulo, Paula diz que se sentiu, por um momento, como Xuxa no show a que assistira duas dcadas atrs em sua cidade natal. Cercada de trs seguranas, ela foi a sensao no lanamento de seu stimo livro. Minha Vida Fora de Srie  2 Temporada (Gutenberg; 424 pginas; 37,90 reais), ansiosamente aguardado pelo exrcito de "pimentinhas", como so chamadas suas fs. Os seis livros da autora j venderam 300.000 exemplares. 
     Aos 38 anos, Paula Pimenta conserva um ar de princesinha adolescente. Mora com a me e um irmo em Belo Horizonte. No seu quarto, a cama  dividida com cachorrinhos, um jacar, um gato (este, em carne e osso e unhas; os demais, de pelcia). Ela coleciona, em DVD, centenas de "filmes de amorzinho"  categoria em que inclui musicais como A Novia Rebelde, comdias juvenis como De Repente 30 e clssicos da Disney como Cinderela, A Bela Adormecida, Branca de Neve e os Sete Anes e A Bela e a Fera. "Esses filmes fazem a gente sonhar", diz Paula, que tambm mantm um blog semanal no site de VEJA. "No cresci. Nunca sa dos 16 anos", admite a escritora. Essa intimidade com o universo romntico das garotas fez de Paula Pimenta o novo fenmeno brasileiro no que  um dos mais ricos segmentos do mercado editorial: a literatura juvenil.  o terreno de best-sellers como a brasileira Thalita Rebouas e a americana Meg Cabot (autora, alis, da srie O Dirio da Princesa, que deu origem a um filme "amorzinho" com Anne Hathaway). E Meg Cabot e Paula, entre outras, esto reunidas na coletnea O Livro das Princesas, na qual os contos de princesas como Cinderela e Rapunzel so recontados com um verniz contemporneo. Lanado pela Record h dois meses, o livro esgotou sua tiragem inicial de 20.000 exemplares. 
     Nenhum outro nicho vem crescendo tanto no Brasil quanto o juvenil  ou, pelo menos, o infantojuvenil, j que nem sempre  possvel encontrar dados que discriminem a literatura feita para crianas e para adolescentes. Em oito anos, na rede de livrarias Saraiva, as vendas para o pblico infantojuvenil aumentaram mais de 500%: em 2012 foi vendido 1,8 milho de exemplares, contra 277.000 em 2005. Mesmo se considerada a ampliao da rede,  um crescimento impressionante. A mais recente pesquisa encomendada pela Cmara Brasileira do Livro e pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros distingue o segmento juvenil do infantil. No juvenil, o crescimento foi slido: 15,3 milhes de exemplares vendidos em 2012, contra 13,4 milhes no ano anterior  um aumento de 14% em um perodo no qual o mercado global caiu 7%. Desde o fenmeno Harry Portter de J.K. Rowling, o segmento infantojuvenil ganhou relevncia no mercado mundial  confirmada, alis, com Crepsculo. de Stephenie Meyer, srie que, mesmo povoada por vampiros e outros monstros, reabilitou o romantismo gua com acar. A saga Crepsculo, no entanto, tambm foi devorada por um bom nmero de marmanjos (ainda que nem todos o confessem). J a literatura de Paula tem um apelo mais especfico: seu pblico virtualmente exclusivo est na faixa dos 12 aos 15 anos e  do sexo feminino. So essas garotas que lotam as sesses de autgrafo da autora e a recebem com aqueles gritinhos e manifestaes de tietagem tpicos de shows de dolos pop. 
     Essas leitoras gostam de histrias que retratam suas emoes exageradas  amam e sofrem por um menino como se fosse questo de vida e morte. Paula considera que as redes sociais e os celulares imprimiram uma nova velocidade a essas paixes fulminantes. "A paquera no meu tempo era ir ao bar para olhar os meninos. Hoje, a paquera se d pelo WhatsApp", diz (o WhatsApp, para quem no conhece,  um aplicativo de mensagens instantneas em smartphones). E  assim que, nos livros da autora, os personagens esto sempre trocando mensagens e e-mails. 
     A resposta das jovens leitoras, como se v nos autgrafos,  tambm carregada de intensidade emocional. Algumas enfrentam filas de sete horas para encontrar Paula Pimenta. Levam cartazes, tiram fotos da autora com o celular e alimentam as redes sociais com defesas hiperblicas de seus livros favoritos. " uma gerao que tem dolos literrios. Elas vestem a camisa de maneira muito apaixonada. E gostam do One Direction tanto quanto da Paula Pimenta", diz Ana Lima, editora executiva do Galera, selo jovem do Grupo Record. Os meninos, em eventos similares, encaram seus autores preferidos de maneira distinta: como um brother, um grande amigo. "Eles ficam embasbacados e babes", diz Fabricio Valrio, editor de infantojuvenil da Vergara & Riba e descobridor no pas do fenmeno Dirio de um Banana (veja quadro ao lado). Os meninos, claro, dispensam o "amorzinho" e preferem a fantasia, s vezes a pancadaria. Com uma srie protagonizada por anjos, demnios e aliengenas, o carioca Eduardo Spohr movimentou 600.000 exemplares  seu leitor tpico est entre a adolescncia e o incio da idade adulta. Os livros baseados no videogame Assassin's Creed venderam 700.000 cpias no Brasil. E o americano Rick Riordan j vendeu no pas 2,9 milhes de exemplares das aventuras mitolgicas estreladas pelo garoto Percy Jackson. So fenmenos que contrariam o lugar-comum segundo o qual meninos e meninas ligados no celular, no tablet e no Facebook no mais lero. Paula Pimenta e seus pares realizaram um feito e tanto: so lidos pela gerao do tudo-ao-mesmo-tempo-agora.

Livros de amorzinho
Paula Pimenta, mineira, 38 anos
Sries: Fazendo Meu Filme, com quatro ttulos, e Minha Vida Fora de Srie, com dois ttulos
Vendas: 300.000 exemplares

Na lngua da adolescncia
Thalita Rebouas carioca, 38 anos
Sries: Fala Srio, com seis ttulos, Tudo por..., com trs, e Ela Disse, Ele Disse, com dois ttulos, mais quatro livros independentes, incluindo uma coletnea de crnicas para adultos. Dois livros viraram peas de teatro e trs sero adaptados para o cinema
Vendas: 1,4 milho de exemplares

Amigo da garotada
Jeff Kinney, americano, 42 anos
Srie: Dirio de um Banana, com sete ttulos. Desde 2010, j foram lanados trs filmes baseados em seus livros
Vendas: 78 milhes de exemplares no mundo, dos quais 2,2 milhes no Brasil.

o livro mais ntimo dos meninos
     Se as meninas sustentam sries de romances como Crepsculo, de Stephenie Meyer, os meninos tm, no mercado editorial, certa fama de preguiosos (sim, eles leram os sete volumes de Harry Potter, de J.K. Rowling, mas essas obras foram adotadas tambm pelas garotas). Dirio de um Banana contradiz, em parte, essa percepo. A srie criada pelo americano Jeff Kinney j conta com sete livros, e o autor pretende que ela chegue a dez  o lanamento do oitavo ttulo est anunciado para o ano que vem. So obras muito simpticas, mas,  justo dizer, ainda um tanto displicentes: texto breve ao redor de bem-humorados desenhos em trao rudimentar, infantil ( por esse carter hbrido de livro ilustrado, quase em quadrinhos, que a srie, apesar de seu slido desempenho no mercado, no entra nas categorias da lista de mais vendidos de VEJA). Com esses elementos bsicos, Dirio de um Banana tornou-se best-seller mundial, traduzido em 41 lnguas  no Brasil, a srie vendeu 2,2 milhes de exemplares. J foram feitos trs filmes baseados na obra de Kinney. Todos, alis, muito bem adaptados. 
     A srie Dirio tem apelo sobretudo para meninos na faixa dos 7 aos 12 anos. "Os garotos sentem que os livros falam deles com propriedade, de forma leve e com humor", diz Fabrcio Valrio, editor de infantojuvenil da Vergara & Riba, que publica Dirio no Brasil. Muito diferente do mago Harry Potter ou do semideus Percy Jackson (ah, sim: a srie do autor Rick Riordan desmente a preguia do menino leitor), o protagonista  um prosaico garoto chamado Greg Heffley, s voltas com as pequenas desventuras tpicas da idade escolar: as garotas que o ignoram, o sentimento de inadequao, a branda inveja do amigo mais popular e descolado, os conflitos com o irmo mais velho que  uma peste abominvel. Ao lado dos sete livros que narram os percalos desse banana (no original, wimpy kid: fracote, moleiro), h tambm um volume em que o leitor  convidado a responder a perguntas e escrever impresses pessoais. Por sua matria ntima, a leitura do Faa Voc Mesmo costuma ser vetada aos pais. Episdio verdico ocorrido com uma me paulistana: bisbilhotando no Faa Voc Mesmo do filho de 8 anos, ela descobriu quem era a menina por quem ele tinha uma paixonite. O nome dela aparecia na resposta que o garoto deu  pergunta "qual foi a coisa mais constrangedora que voc j viu acontecer a outra pessoa?": "Ver a Duda chorando". Homens (ou homenzinhos) s vezes precisam desabafar o inconfessvel, ora. 


2. TELEVISO  A CSAR O QUE  DE CSAR
Amor  Vida teve seu melhor momento na reao brutal do personagem de Antonio Fagundes ao saber que o filho  gay. Ele veio para dinamitar as convices burras.
MARCELO MARTHE

     Na sinopse original da novela Amor  Vida, o mdico e pai de famlia Csar Khoury (Antonio Fagundes) teria vida curta. O noveleiro Walcyr Carrasco pretendia tir-lo de cena mais ou menos no ponto em que a trama se encontra agora. Mas o criador voltou atrs na sentena de morte de sua criatura. " medida que vou escrevendo, os personagens  que me contam para onde vai a histria. Alm disso, no momento em que o Fagundes aceitou o papel, eu sabia que no ia mais mat-lo. Ningum mata um ato como ele no meio de uma novela", afirma o autor. Sbia deciso. Coube a Csar injetar dubiedade e providencial dose de realismo num folhetim que at h alguns captulos parecia resignar-se com as caricaturas rasas. 
     No comeo de Amor  Vida, o personagem foi apresentado como um pai amoroso e dono de hospital preocupado com seus pacientes pobres. Aos poucos, contudo, Csar foi se revelando um santo do pau oco. Ele no teve escrpulos em se envolver com sua secretria, Aline (Vanessa Gicomo), bem debaixo do nariz da mulher, Pilar (Susana Vieira). Mais recentemente, soube-se que Paloma (Paolla Oliveira), sua filha caula,  fruto de outra relao extraconjugal. A mscara caiu de vez com a reao brutal de Csar  descoberta de que o filho mais velho  gay. Durante o jantar em famlia no qual Flix (Mateus Solano) foi arrancado do armrio a frceps, Csar fez expresso de nojo ao ver as provas do negcio: fotos do seu rebento enroscado com o amante que chama de "anjinho". Segurou-se para no agredir o filho: "Por mim, eu dava um murro na cara dele". Embora no tenha produzido nenhum recorde de audincia, o embate foi a cena de maior repercusso da novela  e a mais elogiada nas mensagens dos espectadores  Globo. 
     Nas cenas seguintes, Csar disparou as frases mais cabeludas com uma transparncia raras vezes vista no horrio das 9 da Globo  no qual, nos ltimos tempos, a "questo gay" recebeu tratamento em geral politicamente correto (a ousadia mxima, v l,  uma tirada de humor ferino aqui ou acol). Em conversa com a mulher, o mdico tachou Flix de "mariquinha" e "bichinha", e acusou Pilar de ter transformado o filho em homossexual com seu jeito de perua (por sinal, se Fagundes e Solano esto bem em seus respectivos papis, Susana Vieira no fica atrs: ela confere dignidade surpreendente  dondoca trada). "Voc mimou demais esse menino. Quando ele dizia que seu sapato no combinava com o vestido, eu queria morrer", disse. Mas o pior, claro, foram as palavras reservadas ao prprio Flix. Csar revelou que sempre odiara seus trejeitos. "Voc  discreto como um destaque de escola de samba", acusou. No se sensibilizou, por fim, quando Flix revelou seu alvio de sair do armrio. "Voc carrega meu nome. Isso me enche de vergonha", tascou o pai. 
     Csar, enfim, tem um tanto de bonzinho e outro belo tanto de vilo. O que faz dele uma exceo num gnero em que no costuma haver espao para as zonas cinzentas. "Csar  generoso, mas infiel  mulher, como tantos homens. E homofbico, como tantas pessoas por a", diz Carrasco. A exploso do personagem exps um dado da realidade: goste-se ou no, ele falou o que muitos pais poderiam at no ter coragem de pronunciar nessas horas  mas pensariam, sim, em seu ntimo. "Eu no tenho preconceito  Quem quiser ser gay, que seja. Mas no meu filho", afirmou  num autntico "sincerocdio" em tempos de patrulha politicamente correta. Para o autor, alis, esse  um discurso muito comum tambm entre as mes  inclusive, afirma Carrasco, entre certas mulheres que se julgam muito modernas por cultivar amigos gays: "Eu sei de algumas que, ao descobrir que o prprio filho  homossexual, exigem que ele pelo menos lhes d um neto. Ou entram em surto e o rejeitam com frases do tipo 'eu preferia que fosse um assassino'", diz. 
     A turbulncia no lar dos Khoury pe foco sobre outra ironia. O preconceito no , decerto, exclusividade dos heterossexuais: gays tambm so capazes de atos medonhos nessa matria  at contra si mesmos. No caso de Flix, a coisa pega  no bolso. Ele jura que far de tudo para se emendar ao saber que, do contrrio, o pai vai deserd-lo. "Se eu pudesse, nunca seria gay. Mas pelo menos tento ser discreto, papi", diz. Carrasco pretende deixar claro que no meio gay vigora uma diviso de classes. "Os gays atacam seus pares com apelidos como 'barbies'  aqueles que fazem muita ginstica  e 'po com ovo'  os muito pobrezinhos", relata o autor. 
     Ao iluminar o lado escuro de Csar, Amor  Vida deu um n na cabea de muita gente. No comeo da novela, um discurso do mdico contra o aborto irritou a militncia feminista e esquerdista. Com o retrato devastador do Csar homofbico,  bvio que esse pessoal agora recolheu suas asinhas.  uma maravilha quando uma novela provoca um curto-circuito assim nas convices burras. Aqui fica a lio: o exame da ambiguidade moral  o caminho para o gnero recobrar sua relevncia. A Csar o que  de Csar.

 Para um homem como eu, que sempre deixou as mulheres locas, no querer um filho gay  questo de princpio.
 Sem mulher e sem filho, voc vai soltar a franga.
 Entre voc e esse rapaz, quem  o homem e quem  a mulher?
  um mariquinha, uma bichinha  e a culpa  sua, pilar.
 Eu no tenho preconceito. Quem quiser ser gay, que seja. Mas no meu filho.


3. CULTURA  AS VINHAS DA HISTRIA
Um acadmico revisa a trajetria do vinho e conclui que a bebida que era assim chamada na Antiguidade tem pouco em comum com a que se consome hoje.
TNIA NOGUEIRA

     Escavaes em um stio arqueolgico em Lattes, na costa mediterrnea da Frana, provaram que os gauleses produziam vinho pelo menos desde o sculo V a.C. O trabalho da equipe do arquelogo Patrick McGovern, da Universidade da Pensilvnia, publicado em junho, apresenta assim a evidncia mais antiga de vitivinicultura no pas hoje lder no setor. Ela vem se somar a centenas de outras que confirmam a tradio milenar da bebida  tradio que os produtores e comerciantes adoram cantar e os consumidores, ouvir. O vinho de nossos dias tem, contudo, pouco em comum com aquele bebido por Scrates em O Banquete, de Plato, ou por Jesus Cristo na Santa Ceia.  uma inveno recente. Essa  a tese do livro Inventing Wine: A New History of One of the World's Most Ancient Pleasures (Inventando o Vinho: uma Nova Histria de um dos Prazeres Mais Antigos do Mundo), de Paul Lukacs. 
     Segundo o autor, o aroma e o sabor do vinho na Antiguidade seriam detestveis para o paladar moderno: um fermentado de uva oxidado, avinagrado, repleto de contaminaes por fungos e bactrias. Devido  falta de higiene e  incapacidade tecnolgica de evitar o contato do lquido com o ar, o vinho dos dias de Scrates e Jesus nem tinha os aromas frescos da juventude nem envelhecia de forma saudvel. O remdio aplicado piorava as coisas. Para disfararem o mau cheiro, os antigos usavam ervas aromticas secas, pimenta e outras especiarias. Na tentativa de aumentarem a longevidade, acrescentavam mel e at sal  bebida. Para impedirem a entrada de ar nas nforas, besuntavam-nas com leos e resinas de diferentes rvores. Tudo isso alterava o vinho. Nem por isso os antigos deixavam de apreci-lo. Plnio, o Velho, que no sculo I dissertou longamente sobre a bebida em sua Histria Natural, era um connoisseur das diversas resinas usadas para a vedao de nforas. 
     As diferenas entre o vinho de ento e o de hoje esto no s no sabor mas, nota Lukacs, tambm na sua funo social, que no passado era menos ligada ao prazer e mais  religio. Nos primeiros relatos da Antiguidade, o vinho aparecia como uma bebida de carter divino. Usada em rituais e nos templos, no precisava ter qualidade. Depois, nas cidades-estado gregas e em Roma, comeou a surgir um mercado do vinho j mais preocupado com o sabor. Na Grcia, as ilhas do mar Egeu eram tidas como fonte de bom vinho. No Imprio Romano, o mais famoso deles vinha das encostas do Monte Falerno. Feitos de uvas-passas, ambos eram muito doces e, por isso, estragavam menos que os outros  o acar age como conservante natural. A tcnica de produo era prxima  usada hoje para fabricar os chamados vinhos passificados, como o Vinsanto da ilha grega de Santorini ou o Passito, de Pantelleria, ilha italiana entre a Siclia e a Tunsia. 
     Foi s na Idade Mdia, quando a Igreja separou o vinho do culto daquele que se bebia no dia a dia, que a bebida de fato se secularizou. Curiosamente, foram os freis e abades que, isolados em seus monastrios, trabalharam na qualidade do vinho secular. Os mais importantes deles foram os monges beneditinos da  Abadia de Cister, na Borgonha, que a partir do sculo XII mapearam alguns dos vinhedos mais caros dos nossos dias. A popularizao das garrafas, no sculo XVII, possibilitou a criao de vinhos finos na Alemanha e na prpria Franca. A grande massa, no entanto, continuou bebendo uma mistura pavorosa at a segunda metade do sculo XX. Acredita Lukacs  que decerto nunca bebeu um vinho de garrafo brasileiro  que, dos anos 1990 para c, at vinhos baratos deixaram de cometer pecados mortais. 
      Lukacs no  historiador mas , sim acadmico (alm de enfilo). Professor de ingls da Universidade Loyola Maryland, fundamenta sua hiptese com uma vasta bibliografia. Seu trabalho irrita quando prova ao leitor que a regio de Bordeaux, cone mximo da tradio em vinhos, s no sculo XVIII se tornou o que  hoje. Mas pode ser de grande ajuda ao apreciador de vinhos, ao estudioso de histria ou antropologia e a todo aquele que busca entender os favoritismos do paladar para essa bebida ancestral  mas moderna.

BEBIDA ROUBADA DOS DEUSES
A histria do vinho vai do consumo religioso  produo para o mercado.

8000 a.C. 
Sementes e gravetos fossilizados provam que se cultivavam uvas nas regies da sia Menor, que relatos bblicos e mitolgicos apontam como o bero do vinho.

1500 a 1070 a.C. 
No Egito dos faras, a nobreza bebia vinho nos rituais religiosos e em momentos festivos. nforas encontradas no tmulo de Tutancmon (sculo XIV a.C.) trazem informaes sobre a safra e a produo. 

Sculo VI a.C
Incio do culto a Dionsio, o deus do vinho, na Grcia. Quinhentos anos depois, os gregos disseminariam as vinhas pelo Mediterrneo.

Sculo I a.C, a sculo I
Os romanos comeam a plantar uvas vinferas nas regies sob seu domnio

Sculo XII
Na Abadia de Cister, em Cteaux, na Borgonha, os monges comeam a desenvolver o conceito de terroir, a influncia do microclima nas caractersticas do vinho

1860
O qumico francs Louis Pasteur desvenda o mistrio da fermentao que transforma o suco de uva em vinho - uma descoberta cientfica que revolucionaria a produo 

1976
Na degustao s cegas conhecida como Julgamento de Paris, rtulos californianos vencem os grandes Bordeaux: a Europa no  mais a nica a produzir vinhos de qualidade

1982
A crtica de vinho ganha importncia indita com o americano Robert Parker, que classifica a safra de Bordeaux como excepcional e tem sua escala de pontuao transformada em padro quase universal de qualidade 

Sculo XXI
O mundo todo produz vinhos potentes e frutados que tentam imitar os Bordeaux 1982. Por outro lado, nunca houve tantos vinhos diferentes, de uvas locais, que recuperam e aprimoram os mtodos tradicionais de vinificao


4. CINEMA  AMOR DE PERDIO
Flores Raras, o novo filme do diretor Bruno Barreto, evita o lugar-comum do gnero "mulheres  frente de seu tempo'" e traz mais um timo desempenho de Gloria Pires.

     A americana Elizabeth Bishop (1911-1979) era poeta, frgil, asmtica e contida  como convinha a uma moca bem-nascida e formada em Vassar, a prestigiosa universidade feminina do estado de Nova York. J Maria Carlota Costallat de Macedo Soares, ou Lota (1910-1967), brasileira nascida em Paris, era arquiteta autodidata, exuberante, passional e no costumava aceitar "no" como resposta  bem diferente do que se esperava das moas da alta sociedade carioca. O encontro dessas duas mulheres no Rio de Janeiro, em 1951, resultou em uma histria de amor que se estendeu por dezesseis anos e rendeu um livro biogrfico (Flores Raras e Banalssimas, lanado aqui pela Rocco), um monlogo teatral (Um Porto para Elizabeth Bishop) e, agora, um filme do diretor Bruno Barreto. Baseado no livro j citado e partindo do primeiro verso do poema Uma Arte, de Elizabeth Bishop (''No  to difcil dominar a arte de perder..."), Flores Raras (Brasil, 2013), desde sexta-feira em cartaz, conta o romance dessa dupla feminina improvvel com tons delicados, economia de emoes e uma esquiva gil da armadilha do retraTo de "mulheres  frente de seu tempo". 
     Aos 40 anos, Elizabeth (a australiana Miranda Otto) chega ao Rio tentando enfrentar os demnios que a atormentam: um bloqueio criativo  ela havia publicado seu at ento nico livro fazia j cinco anos  e o alcoolismo, que a acompanhava desde os dias em Vassar.  recebida pela amiga de faculdade Mary (Tracy Middendorf) e sua companheira, Lota (Gloria Pires), e as trs seguem para a propriedade da arquiteta, em Petrpolis, onde as relaes entre o trio vo causar fascas. A princpio a despachada brasileira deixa claro no suportar a timidez e o esnobismo da hspede americana, que se mostra desajeitada e pouco  vontade entre desconhecidos que falam muito alto em uma lngua estranha e se cumprimentam efusivamente com beijinhos e abraos. At que um incidente tropical se interpe: Elizabeth sofre um ataque alrgico depois de comer um caju. Lota se desdobra em cuidados  e o inevitvel acontece. A escritora s voltaria aos Estados Unidos em 1967. 
     A fraqueza do filme  acompanhar de forma literal os altos e baixos do relacionamento entre Lota e Elizabeth:  envolvente e interessante enquanto elas se conhecem e vivem seus momentos mais felizes, e se torna enfadonho e arrastado  medida que Elizabeth mergulha no alcoolismo e Lota, na depresso. As duas atrizes, porm, mantm a engrenagem em movimento  sobretudo Gloria Pires, que aqui atua pela primeira vez em ingls. Sua Lota forte, elegante e divertida faz compreender por que a fria e insegura Elizabeth deixou um amor de vero se transformar na paixo de toda uma vida. 
MRIO MENDES


5. VEJA RECOMENDA
DISCOS
LeS LOIS DE l'EPHMRE, NO SQUARE JAZZ QUARTO (INKER)
 Com duas dcadas de atividade, o No Square  um quarteto franco-suo de jazz avesso a invencionices. Longe das fuses da moda com o hip-hop, das releituras de sucessos da msica pop, o grupo aposta numa linguagem tradicional. Mas no se deve alinhar o No Square ao purismo fundamentalista de um Wynton Marsalis: sem vestgio de mofo, suas composies tm uma vibrao vital que se deve, sobretudo, aos belos solos do pianista Matthieu Roff. Les Lois de Lphmre  o oitavo disco do quarteto. Foi gravado no estdio La Buissonne, sede de boa parte dos trabalhos do selo ECM, gravadora que abriga talentos como Keith Jarrett. O piano de Roff ora debulha a melodia em faixas como Sharp 4Song  cujo acento bebop tambm d espao aos talentos do baterista Yannick Oppliger e do baixista Andr Hahne , ora mostra uma faceta suave (por exemplo, na balada Shamash). Roff, instrumentista que mostra familiaridade com a msica erudita, brilha ainda em New Life, que comea com um andamento reminiscente do jazz fusion dos anos 1970 para ento se tornar um show particular do pianista.

BLURRED LINES, ROBIN THICKE (UNIVERSAL)
 Com sua letra assumidamente cafajeste  basicamente a conversa de um homem querendo levar uma moca para a cama , Blurred Lines, de Robin Thicke, deve figurar entre as canes mais tocadas de 2013. E desde j, tambm, merece ser includa entre as melhores do ano. Produzida por Pharrell Williams, que tem no currculo trabalhos com Britney Spears e Madonna, e cantada em falsete, a msica mistura um hit danante de Marvin Gaye  Got to Give Up, de 1977  com gritinhos sampleados de Michael Jackson, tudo envolvido por uma batida que convida ao requebro. A cano e o disco de mesmo nome esto hoje no topo das paradas americanas, mas o lbum, com seu climo soul/funk/ disco das dcadas de 70 e 80, tem bem mais a oferecer alm da cano-ttulo. Os vocais agudos de Thicke j o colocam ao lado de Justin Timberlake, Allen Stone e Mayer Hawthorne entre os melhores da safra de brancos no rhythmnblues. Ooo La La e Ain't No Hat 4 That so garantia de pista cheia. E a balada 4 the Rest of My Life, que o cantor dedica  mulher, a atriz Paula Patton, suaviza as cantadas indecorosas do restante do disco. 

LIVROS
VIDAS PROVISRIAS, DE EDNEY SILVESTRE (INTRNSECA; 240 PGINAS; 29,90 REAIS, OU 19,90 REAIS NA VERSO ELETRNICA)
 O jornalista Edney Silvestre j tem, no currculo de ficcionista, dois elogiados livros policiais  Se Eu Fechar os Olhos Agora e A Felicidade  Fcil. Neste terceiro romance, ele se afasta do gnero para compor uma histria em que transparece sua longa experincia como correspondente internacional da Rede Globo. Vidas Provisrias  um livro sobre o exlio. Narra as desventuras de dois personagens que, em diferentes pocas, se vem obrigados a deixar o Brasil. Preso e torturado pela ditadura militar, em 1970. Paulo consegue escapar primeiro para o Chile e depois para a Sucia, onde se apaixona por uma militante da Anistia Internacional. J Barbara se torna imigrante ilegal nos Estados Unidos em 1991; sem falar ingls, sobrevive de bicos e subempregos. A histria dos dois  contada em captulos alternados, cuja diferena  marcada at na cor do texto (letras no preto convencional para Paulo e em roxo para Barbara). No contraste entre essas duas histrias de estranhamento cultural. Edney Silvestre traa um amplo panorama ficcional do Brasil no passado recente.

NECRPOLE, DE BORIS PAHOR (TRADUO DE MRIO FONDELLI; BERTRAND BRASIL; 294 PGINAS; 39 REAIS)
 Sobreviventes de campos de concentrao nazistas como o italiano Primo Levi e o romeno Elie Wiesel escreveram relatos que iluminam um dos grandes pesadelos histricos do sculo XX. Nascido em Trieste, na Itlia, onde vive ainda hoje, j centenrio, o escritor de ascendncia eslovena Boris Pahor integra-se a essa tradio com um relato cujo ponto de partida  inquietante: ele narra a visita que faz, misturado a outros sobreviventes e a muitos turistas, ao campo de Natzweiler-Struthof, onde esteve aprisionado, na II Guerra Mundial, por causa de suas atividades na resistncia eslovena ao nazismo. A visita detona memrias da humilhao, da dor e da morte que o cercaram naqueles anos. Desperta tambm a culpa de ter sobrevivido, quando tantos outros morreram naquele campo (Pahor teve a sorte terrvel de ser escalado como enfermeiro, trabalho menos pesado). Mas, como diz o escritor italiano Cludio Magris no prefcio, "Boris Pahor escolhe carregar nos ombros esse nus sem, no entanto, sucumbir a ele". Este  um testemunho do horror, mas tambm do poder do esprito humano mesmo diante das mais extremas condies.

CINEMA
OS ESCOLHIDOS (DARK SKIES, ESTADOS UNIDOS, 2013. J EM CARTAZ NO PAS)
 Lacy e Daniel (Keri Russell e Josh Hamilton) tm angstias reais de sobra: falta de emprego, hipoteca atrasada, um filho que est entrando na adolescncia com estrondo, um caula que parece estar sofrendo de sonambulismo ou de terrores noturnos. No  de admirar, portanto, que o prprio casal demore a levar suas suspeitas a srio quando seu dia a dia passa a ser transtornado por acontecimentos que eles no sabem explicar. Pode ser coincidncia, apenas, um bando de pssaros chocar-se contra sua casa em certa ocasio  mas, seja como for,  perturbador ter de recolher tantos animais mortos do jardim. Talvez o filho pequeno esteja manifestando um transtorno mais grave que os medos habituais da infncia  se no, como justificar as coisas bizarras que ele faz durante o sono? Tambm no  reconfortante ouvir de um sujeito obcecado por aliengenas (J.K. Simmons) que  esse o problema da famlia, e comear a achar que ele pode ter razo. O diretor Scott Stewart, de Padre e Legio, se atm  sua especialidade, o terror/ fico de produo modesta. Mas refora o elemento de suspense e colhe seus melhores e mais eficazes resultados at aqui.


6. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1. Inferno.  Dan Brown. ARQUEIRO
2. A Culpa  das Estrelas.  John Green. INTRNSECA
3. O Silncio das Montanhas.  Khaled Hosseini. GLOBO 
4. Para Sempre Sua.  Sylvia Day. PARALELA 
5. Cinquenta Tons de Cinza.  E.L. James. INTRNSECA 
6. A Marca de Atena. Rick Riordan. INTRNSECA 
7. Um Porto Seguro. Nicholas Sparks. NOVO CONCEITO
8. O Teorema Katherine. John Green. INTRNSECA
9. A Guerra dos Tronos. George R.R. Martin. LEYA BRASIL 
10.   O Lado Bom da Vida.  Matthew Quick. INTRNSECA 

NO FICO
1. Sonho Grande.  Cristiane Correa. PRIMEIRA PESSOA
2. Cincia e F. Bispo Rodovalho. RECORD
3. Dirceu  A Biografia.  Otvio Cabral. RECORD 
4. Guia Politicamente Incorreto da Histria do Mundo. Lenadro Narloch. LEYA BRASIL
5. Carlos Wizard  Sonhos No Tm Limites. Igncio de Loyola Brando. GENTE
6. Casagrande e seus demnios. Casagrande e Gilvan Ribeiro. GLOBO
7. Um Gato de Rua Chamado Bob.  James Bowen. NOVO CONCEITO 
8. A Vida de Francisco  O Papa do Povo. Evangelina Himitian. OBJETIVA 
9. Pensadores que Inventaram o Brasil. Fernando Henrique Cardose. COMPANHIA DAS LETRAS 
10. Para Sempre. Kim e Krickitt Carpenter. NOVO CONCEITO 

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1. Kairs.  Padre Marcelo Rossi. PRINCIPIUM
2. Eu No Consigo Emagrecer.  Pierre Dukan. BEST SELLER 
3. Casamento Blindado.  Renato e Cristiane Cardoso. THOMAS NELSON BRASIL
4. O Monge e o Executivo.  James Hunter. SEXTANTE
5. Seja a Pessoa Certa no Lugar Certo. Eduardo Ferraz. GENTE
6. S o Amor Consegue.  Zibia Gasparetto. VIDA & CONSCINCIA 
7. Desperte o Milionrio que H em Voc. Carlos Wizard Martins. GENTE
8. Receitas de Dukan. Pierre Dukan. BEST SELLER
9. Louco por Viver. Roberto Shnyashiki. GENTE 
10. Uma Prova do Cu.  Dr. Eben Alexander III. SEXTANTE 


7. ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  TUDO  ABSURDO
     Agosto costumava ser o mais cruel dos meses na poltica brasileira. Este agosto promete ser o mais pachorrento dos meses. No chegamos ainda nem  metade do ms e o colunista arrisca quebrar a cara, mas todo o frenesi e o sentido de urgncia trazidos pelas passeatas de junho parecem se ter dissipado ao morno solzinho de agosto. O governo prometia agir e disparou projetos como o serial killer dispara balas. O Congresso sepultou a PEC 37 e prometeu muito mais. Iniciado agosto, a presidente Dilma proclama seu respeito ao ET de Varginha, e a nica questo que mobiliza o Congresso  o projeto de tornar obrigatrio o pagamento das emendas apostas por parlamentares ao Oramento. "Tudo  absurdo, mas nada  chocante, porque todos se acostumam a tudo", escreveu Rousseau em A Nova Helosa.  
     O Judicirio  um caso  parte. Entre a glria e a desmoralizao, o Supremo Tribunal Federal equilibra-se num estreito fio. Da denncia do Ministrio Pblico, em abril de 2006,  sua aceitao pelo relator do processo do mensalo, em agosto de 2007, transcorreram dezesseis meses. Entre a aceitao da denncia e o incio do julgamento, em agosto de 2012, foram cinco anos. Mais quatro meses e, em dezembro de 2012, o julgamento chega ao fim, com 25 condenados. Alvio. Enfim, conseguimos. No, no conseguimos. Falta a publicao do acrdo. Como ningum  de ferro,  preciso calma para que cada ministro reveja o texto de seus votos, medite, pondere. Mais quatro meses se escoam. 
     Em abril, aleluia, o acrdo  publicado. Abre-se o prazo para os rus apresentarem seus recursos. O.k.,  rapidinho: s dez dias. Agora,  s marcar o julgamento. Passa um ms, passam dois, passam trs, e s no ltimo dia de julho o presidente do Supremo marca para 14 de agosto, esta quarta-feira, o incio da nova fase. Os rus j no foram condenados? Foram. As penas j no lhes foram atribudas? Foram. O que pode mudar ento, com os embargos declaratrios e, quem sabe, se forem aceitos, mesmo com os que atendem pelo assustador nome de infringentes?  o que a plateia gostaria de saber, mas mesmo quem est no palco no sabe responder. V explicar a um estrangeiro que um processo se arrasta por seis anos, enfim chega ao fim, mas o fim no  o fim,  um fim que prenuncia um recomeo, e o recomeo sabe-se l quando ter seu fim. J ns brasileiros estamos acostumados.  absurdo, claro, mas no  chocante. 
     O Supremo acompanha o passo habitual do pas. Nada  urgente. Nunca se deu sentido de urgncia ao escabroso problema da educao. A capa da ltima VEJA chamou ateno para o morticnio nas estradas. Nunca se deu sentido de urgncia  represso aos assassinos do volante. A promessa de reao fulminante  voz das ruas foi s um espasmo. Para ajudar os poderes constitudos, os black blocs entraram em ao e desencorajaram quem ainda pretendesse sair em passeata. Agosto nos traz de volta  pasmaceira caracterstica. O escritor mexicano Alfonso Reyes aconselhava manter sempre uma pasta com o ttulo: "Papeies que el tiempo arreglar". As coisas so muito complicadas. Um dia resolvem-se por si.   
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     Para o poeta T.S. Eliot, num dos mais famosos versos do sculo XX, abril era o mais cruel dos meses. O escritor e jornalista americano John Darnton, ento jovem correspondente do New York Times na frica, ouviu dizer que Robert Mugabe, comandante da guerrilha que combatia o governo branco da Rodsia (o futuro Zimbbue), era leitor de Eliot. Mais um motivo para querer entrevistar aquele desconhecido lder, que tinha sua base em Moambique. Darnton fez as perguntas de praxe, a situao da guerrilha, o apoio e a falta de apoio internacional, e, no fim, querendo um toque humano do entrevistado, perguntou: "O que exatamente o atrai em T.S. Eliot?". Silncio, com um qu de perplexidade. "O senhor sabe, no? The Waste Land", tentou o reprter, citando o ttulo do poema que comea com o verso famoso. Mesmo silncio, j com um qu de irritao. "Abril  o mais cruel dos meses", ainda insistiu Darnton. "No tenho a menor ideia do que voc diz", encerrou o entrevistado. Mugabe foi reeleito, alis "reeleito" presidente do Zimbbue no dia 31 de julho.  hoje um dos mais longevos (33 anos no poder) e mais tirnicos lderes do continente. Tudo  absurdo, do estapafrdio dilogo entrevistado-entrevistador  histria da frica, mas nada  chocante. 


